I
Na minha espera de uma hora a empregada ofereceu água umas quatro vezes. Quando decido aceitar a água, sou interpelado pela dona (da casa), Soraia Copel, que dispensa a empregada com um abano de mãos.
“Desculpa te fazer esperar, estava na minha seção de ThetaHealing. A gente não pode encerrar essas coisas no meio, né?”.
Abri um sorriso amarelo, que mantive pelos próximos quinze minutos enquanto ela falava sobre a vida de merda dela. Só quando termina de falar da sua yoga me diz por que me chamou: o marido, um empresário milionário, quer investir em projetos culturais e a designou para coordenar a criação de uma orquestra filarmónica. Ela ficaria com a administração e direção artística e eu com a regência.
Fui regente de quase uma dezena de orquestras pelo Brasil. Isso não quer dizer porcaria nenhuma e a única coisa a se saber é que todas as orquestras que trabalhei não existem mais e já estou há dois anos sem segurar uma batuta.
A “proposta musical” para a filarmônica era tão simples quanto qualquer ideia que pudesse sair da cabeça dessa mulher: deveria ser uma orquestra show, com fogos de artifício, cavalos, músicos fantasiados, muita produção de cenário… “A música tocada pela orquestra vai acompanhar essa produção monumental e sublime”, ela me diz se sentindo a pessoa mais inteligente do mundo.
“Bom, é isso, vamos fazer acontecer”, digo enquanto lhe estendo a mão. Estou desesperado, mas não me submeto a uma merda dessas. Essa ideia já nasceu morta.
“Queremos uma orquestra inspirada em André Rieu…”. Ela diz isso antes de fazer uma cara de quem faz força pra pensar em algo inteligente. “Não! Não vai ser igual ao André Rieu, vai ser melhor que a orquestra dele! Vai ser a melhor orquestra que esse país já viu!”.
Respondo com meu último sorriso amarelo da manhã. Ela se despede com a sua roupa de ginástica e diz que vai tratar de negócios. A empregada me mostra a saída.
André Rieu.
Inspiração.
I-N-S-P-I-R-A-Ç-Ã-O.
Esse merdinha do André Rieu não dá. O cara é o Coco Bambu da música, o Paris 6 das orquestras, um lixo.
Talvez você ouça André Rieu. Talvez você tenha uma porcelana do Romero Britto. Isso realmente não é o cerne da questão. Também não importa se estou parecendo profundamente arrogante e elitista cultural. O que importa é porque essa mulher deixou a pedra de quartzo em cima do livro.
[Continua na parte II]

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