[ Deixe eles entrarem ]
CENA 1
Um salão de festas vazio. Dário está no centro se alongando.
Nina entra carregando uma caixa com enfeites e começa a arrumar o salão para a festa, fazendo algum barulho. Dário se incomoda.
DÁRIO (para Nina): Eii! Pssiiu! (Nina continua a fazer barulho) Ôô quirida! Ôô quiridinha!
Nina para um instante e Dário acha que ela vai responder. Nina, então, volta a arrumar o salão fazendo mais barulho. Dário se levanta tentando esconder a impaciência.
DARIO: Oiiiiii, então né………. Eu reservei esse salão pra eu ensaiar. Você pode esperar um pouco pra fazer o que você tá fazendo?
NINA: Ah, eu não sabia, desculpe, ninguém me avisou (Puxa um papel e começa ler, procurando algo) Ninguém me avisou MESMO… Então depois eu volto né? Depois desse seu ensaio aí.
Nina sai e Dário termina de alongar. Quando Dário está prestes a começar sua dança, Nina entra novamente, fazendo barulho. Dário vai buscar satisfação e Nina estende uma folha para Dário.
NINA: O senhor me desculpe, mas seu nome não está na lista de reserva da sala, então, oficialmente, o senhor não está aqui.
DÁRIO: (indignado) Eu não tô… (suspira e retoma o prumo) Tá bem, então o que eu faço pra estar aqui?
NINA: Pague a reserva.
DÁRIO: Será que não tem um lugar nessa cidade que a gente possa fazer qualquer coisa de graça?
NINA: E o que eu tenho com isso?! Escuta aqui…
Começam a discutir.
CENA 2
Maria entra.
MARIA: Cheguei com os refri rapaziada…. O que tá rolando?!
DÁRIO: Ela não quer deixar eu ensaiar em paz.
NINA: Ele não pagou pra estar aqui, então não tem direito.
MARIA: Calma lá! Deixa eu resolver essa situação pra vocês! Eu sou advogada. (entrega seu cartão de visitas aos dois) Ele não pagou o salão, certo?
NINA: Isso aí! Não era nem pra ele estar existindo nesse espaço.
DÁRIO: Mas seu horário nem é agora! E se não tem ninguém, qual o problema de eu usar? Qual o sentido de ficar vazio aqui?
Dário e Nina começam a brigar novamente.
MARIA: Calma, calma, CALMA! O rapaz tem razão. Ele pode usar o espaço, sim, e daí? TÁ NA LEI: “A função social da propriedade é um princípio constitucional que determina que o uso de um imóvel deve ser condizente com os interesses da sociedade, e não apenas do proprietário.”
Dário vibra e concorda com veemência.
MARIA: E mais!!! Ele tem o direito de se divertir gratuitamente. TÁ NA LEI:“O direito ao lazer é considerado um direito subjetivo fundamental, ou seja, é um direito que é consagrado por uma norma, e que dá ao titular o direito a um determinado ato.”
DÁRIO: (Provocando Nina) Tá vendo, o que é tem eu ficar aqui??
MARIA: Isso mesmo! “O direito ao lazer tem como objetivo melhorar a vida humana e a saúde, e favorecer a todos, especialmente os mais fracos.”
Dário não gosta muito de ser chamado de fraco.
MARIA: E favorecer até os mais insignificantes…
DÁRIO: Calma aí doutora…
MARIA: Até os mais ridículos.
DÁRIO: Acho que a gente já entendeu, doutora…
MARIA: Até aqueles mais insuportáveis.
Maria continua uma série de ofensas.
DÁRIO: Tá bem!! A gente já entendeu!!
MARIA: Calma, que eu tô ganhando no argumento… ATÉ ESSAS PESSOAS HORRORO…
NINA: (interrompendo) Ok!! Tá legal! Você fica ensaiando aí que eu prometo que não fico atrapalhado. Tá combinado?
Nina e Maria vão arrumar as coisas da festa enquanto Dário retorna para seu ensaio, no centro do salão.
CENA 3
Entra Karen com mais enfeites dentro de uma sacola. As outras fingem que não vêem Karen.
Karen tira um enfeite comprido e gruda uma das pontas dele no teto.
KAREN: (Para Dário) Pssiiu! Eiii! Você que tá aí na ponta! (Dário olha Karen. Ele aparenta estar aborrecido) Aproveita que você está aí do lado lado do salão e me ajuda com esse enfeite.
DÁRIO: Pede para suas amigas, eu tô ensaiando!
KAREN: É que elas não falam mais comigo… (faz cara de dó)
É rapidinho, só pegar o outro lado desse enfeite .
Contrariado, Dário se levanta para ajudar. Ele pega o outro lado do longo enfeite, atravessa a platéia que está sentada e chega à plateia do fundo, que está em pé.
DÁRIO: É aqui?
KAREN: Isso!
Dario pede ajuda à plateia e gruda o enfeite na parede (ou no teto, se der). Depois, Dário volta ao seu ensaio.
CENA 4
Maria e Nina, que estavam olhando o enfeite de Karen, tentam copiar. Cada uma delas pega um enfeite comprido, parecido com o de Karen, e colocam na parede. Elas precisam que o enfeite seja esticado até o outro lado.
NINA: (Para Dário) Eii! Ajuda a gente aqui!!
MARIA: É rapidinho! Abre uma exceção, vai! Nem configura abuso de direito…
DÁRIO: (exausto e delirando) Eu não vou ajudar vocês! Se eu usar o único tempo livre que eu tenho pra ajudar vocês, eu deixo de me ajudar. Se eu parar para ajudar vocês, eu vou entrar num buraco e vou desaparecer, vou deixar de existir. Eu não tenho tempo! Quanto mais o tempo passa, mais eu existo para eles e para vocês!! Quanto mais o tempo passa, menos eu existo para mim! Vocês me entendem??!!
NINA: Não!
MARIA: Não!
DÁRIO: (frustrado): Será que não pra vocês simplesmente fazerem as pazes?
Todas se olham entre si.
NINA: Não!
MARIA: Não!
KAREN: Não!
DÁRIO: (derrotado) Tá bem… Vocês venceram… Chamem quem vocês quiserem pra montar essa festa. Quantas pessoas precisarem… Eu só quero usar o espaço para ensaiar, do jeito que der.
Instantaneamente, Dário volta a seu ensaio. Maria, Nina e Karen saem para buscar ajuda.
CENA 5 - festa de aniversário crescente
Dario, sozinho inicia uma linda coreografia que enfeitiça o público.
O fascínio é quebrado, aos poucos e paulatinamente, pela entrada e ação crescente das pessoas que vão montar a festa. Dario, aos poucos, se sente emboscado e preso, tanto emocionalmente (pois não o deixam viver) como fisicamente (o espaço está ficando apertado).
Começamos a perceber que duas festas estão sendo montadas paralelamente: a festa da Karen, com panos; e a festa da Nina e Maria, com fitas e adesivos.
As pessoas que ajudam na construção da festa entram aos poucos. Cada pessoa que entra contribui com algo na construção. Quando todos entrarem, a arrumação deve se transformar em festa, mas também aos poucos.
- Movimento de varrer o chão vira uma dança;
- Pessoas conversando sobre a posição do enfeite vira uma fofoca com risos;
- Quem coloca o pano de enfeite o transforma em um vestido;
- Os adesivos viram uma espécie de maquiagem carnavalesca.
A festa atinge seu ápice, com bastante movimento e barulho. Tudo isso foi alcançado paulatinamente. Dário é engolido por tanta informação e desaparece quando é empacotado pelo pano que decora a festa.
Todos chamam o público para dançar. A festa acaba.

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