II
[Continuação da parte I]
Queria entender melhor o que levou um rico empresário de uma cidadezinha minúscula a botar dinheiro na criação de uma orquestra. Nada me tirava da cabeça que era lavagem de dinheiro. Então, para conhecer mais sobre quem tava botando dinheiro na brincadeira, eu fiquei uns dias na cidade de Araçari.
O cara, Jorge Copel, além de ter uma fábrica de suco de laranja, era dono de um centro comercial com ares de Champs-Élysées. Um centrinho comercial cheio de lojas de grife, as calçadas eram todas limpas e novas, ali se concentrava noventa por cento da arborização da cidade e a maioria dos prédios eram falsos históricos. O mais surpreendente eram as várias caixas de som pelas ruas e tocavam música clássica. Isso é tão cafona.
Um dos motivos para a música clássica ser um pedaço de merda para a maioria das pessoas vem do fato de que ela se tornou música de elevador. Ninguém gosta de música de elevador assim como ninguém gosta de flor de plástico. Acredito que só sou maestro porque ouvi minha primeira sinfonia aos doze e só entrei em um elevador aos vinte. Jamais me disporia a tocar uma música se soubesse que ela é um lixo.
Mas o fato é: esse centro comercial era o grande ponto turístico de uma cidade que nem teatro tinha. Aparentemente, os cidadãos aplaudiam de pé a iniciativa do empresário para modernizar e embelezar a cidade.
"A cidade tá deixando de ser só mato e tá virando uma cidade de verdade. Se não fosse empresas colocarem o centro comercial aqui, a gente tava lascado. Antes disso, não tinha nada pra fazer ", diz a vendedora de uma das lojas de grife.
"Mas se vocês quisessem sair, faziam como?"
"Tinha que sair da cidade. Por aqui mesmo, só tem o fluxo…" ela olha pra cada uma das rugas que existem na minha cara e para meu cabelo branco e julga necessário complementar. "Fluxo é baile funk, sabe? Por aqui o que mais tem é esses grupos que fazem essas porcarias".
Saí caminhando pelo entorno do centro comercial e, ao lado, tinha uma pequena praça, com uma imensa placa escrita "A manutenção deste parque é feita pela Copel Investimentos". O que explica a praça, que é pública, parecer uma extensão do centro comercial, que é privado. Além de ter a mesma pavimentação e as mesmas árvores que tinha o centro comercial, a praça também ostentava algumas dezenas de caixas de som que tocavam música clássica ininterruptamente. Tudo nessa praça parecia ser feito apenas para ser visto e não para ser ocupado, era só um cartão postal.
Para minha surpresa, essa praça tem um vislumbre de vida quando avistei um grupo de garotos ocuparem seu centro, um deles com uma JBL pequena pendurada no pescoço. Começam a ouvir funk. E eles não estavam fazendo algo enquanto ouviam funk, eles o-u-v-i-a-m O funk. Talvez não percebessem, mas enquanto bebiam e conversavam o corpo deles acompanhava o ritmo, os gestos que faziam uns para os outros seguiam a melodia, a própria conversa soava como uma letra improvisada. Era tudo música.
Subitamente, percebi o volume da música clássica aumentar. O primeiro movimento da Sinfonia 40 de Mozart começa a sobrepor música dos garotos. Não demorou para a JBL sucumbir às caixas de som da Champs-Élysées. O volume de Mozart ficava ensurdecedor e nada mais se ouvia a não ser barulho.
Eu executei essa melodia centenas de vezes com dezenas orquestras, mas hoje senti vergonha de ter regido essa sinfonia. Senti vergonha de ter regido algum dia. Queria enfiar minha batuta no rabo.
Os garotos se incomodam com a música estourada e saem da praça, que fica novamente vazia. Um guardinha percebeu que acompanhei a cena toda e veio falar no meu ouvido.
"Tamos usando a arma dos próprios maloqueiros para atacar eles, funciona que é uma beleza".
"Que bom, seu merda", respondi sorrindo, mas acho que ele não conseguiu escutar.

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