Flerte


Era minha primeira semana trabalhando na fábrica de plástico e estava tomando café entre uma tarefa e outra. Eu só pensava em transar com ela, até então uma total desconhecida. Tinha tido uma grande ideia de como abordá-la, uma ideia irresistível, mas meu pensamento foi interrompido por um grito agudo e agonizante. Era um homem que passou correndo por mim, ele se jogou no chão e ficou lá, rolando e gritando. Foi nesse dia que descobri que o metanol pega fogo, mas a chama é invisível: você sente a pele arder, vê as bolhas estourarem com pus vermelho, sente o cheiro de carne queimada, pode até vislumbrar seu rosto se deformar, sem nem ver a chama. Joguei o copinho de café consciente do que iria conversar com Eloisa.

Era fim de expediente e ela estava rodeada pelos peões da linha de produção. Eu não estava intimidado, eu sabia que era mais interessante e inteligente que eles. Esperei o último homem sair e fui até ela.


"Você sabia que o metanol queima uma chama invisível?"

Sem olhar para mim, ela deu um sorriso amarelo.

"Esse metanol que a gente usa pra fazer a resina acrílica, ele pode pegar fogo e a gente nem percebe, sabia?"

Ela segue mexendo em uma papelada, evitando contato visual.

"Quer dizer, a pessoa que tá pegando fogo percebe, mas quem vê de longe acha que a pessoa só está eufórica, ou até alegre…"

"Escuta aqui seu esquisito, um cara acabou de ficar desfigurado e você vem aqui usar isso pra me xavecar! Você tem merda na cabeça?"


Ela não tinha me entendido. Mas, como sou mais compreensivo que ela, percebi que tinha que tentar outra abordagem.

No outro dia, cheguei na fábrica com a missão de fazer ela me entender. Peguei um pouco de metanol do reator e coloquei em uma garrafinha. Chego na recepção e vejo Eloisa nos amassos com o peão que operava a extrusora. Ela não presta, mesmo.

"Ei, Eloisa! Lembra da nossa conversa de ontem?"

Coloquei fogo na boca da garrafinha e mirei pra acertar no rostinho lindo dela. Antes que atirasse, a garrafa explodiu na minha mão. O peão da extrusora saiu pra procurar um extintor e ficamos só eu e ela. O fogo invisível derretia minha cara.

Caminhei na direção de Eloisa, ela se encolheu no canto da parede. Sentia meu rosto perdendo sua forma com bolhas imensas que se explodiam a cada passo que dava. Me ajoelhei diante dela e encostei meus lábios em seu pescoço liso e macio. Quando me afastei, senti uma pequena resistência: eram meus lábios grudados na pele dela. Uma mão me puxou para trás e me jogou para longe. Com o tranco do puxão, minha boca rasgou, deixando um grande pedaço de carne pendurado no pescoço queimado de Eloisa.

Minha boca não tinha mais lábios, mas um grande sorriso cheio de dentes. Um sorriso de alguém que sabia que tinha sido compreendido.

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