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Flerte

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Era minha primeira semana trabalhando na fábrica de plástico e estava tomando café entre uma tarefa e outra. Eu só pensava em transar com ela, até então uma total desconhecida. Tinha tido uma grande ideia de como abordá-la, uma ideia irresistível, mas meu pensamento foi interrompido por um grito agudo e agonizante. Era um homem que passou correndo por mim, ele se jogou no chão e ficou lá, rolando e gritando. Foi nesse dia que descobri que o metanol pega fogo, mas a chama é invisível: você sente a pele arder, vê as bolhas estourarem com pus vermelho, sente o cheiro de carne queimada, pode até vislumbrar seu rosto se deformar, sem nem ver a chama. Joguei o copinho de café consciente do que iria conversar com Eloisa. Era fim de expediente e ela estava rodeada pelos peões da linha de produção. Eu não estava intimidado, eu sabia que era mais interessante e inteligente que eles. Esperei o último homem sair e fui até ela. "Você sabia que o metanol queima uma chama invisível?" Se...

[ Deixe eles entrarem ]

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  CENA 1 Um salão de festas vazio. Dário está no centro se alongando. Nina entra carregando uma caixa com enfeites e começa a arrumar o salão para a festa, fazendo algum barulho. Dário se incomoda. DÁRIO (para Nina): Eii! Pssiiu! (Nina continua a fazer barulho) Ôô quirida! Ôô quiridinha!   Nina para um instante e Dário acha que ela vai responder. Nina, então, volta a arrumar o salão fazendo mais barulho. Dário se levanta tentando esconder a impaciência. DARIO : Oiiiiii, então né………. Eu reservei esse salão pra eu ensaiar. Você pode esperar um pouco pra fazer o que você tá fazendo? NINA : Ah, eu não sabia, desculpe, ninguém me avisou (Puxa um papel e começa ler, procurando algo) Ninguém me avisou MESMO… Então depois eu volto né? Depois desse seu ensaio aí.   Nina sai e Dário termina de alongar. Quando Dário está prestes a começar sua dança, Nina entra novamente, fazendo barulho. Dário vai buscar satisfação e Nina estende uma folha para Dário. NINA: O senhor me desculpe, ma...

II

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[Continuação da parte I] Queria entender melhor o que levou um rico empresário de uma cidadezinha minúscula a botar dinheiro na criação de uma orquestra. Nada me tirava da cabeça que era lavagem de dinheiro. Então, para conhecer mais sobre quem tava botando dinheiro na brincadeira, eu fiquei uns dias na cidade de Araçari. O cara, Jorge Copel, além de ter uma fábrica de suco de laranja, era dono de um centro comercial com ares de Champs-Élysées. Um centrinho comercial cheio de lojas de grife, as calçadas eram todas limpas e novas, ali se concentrava noventa por cento da arborização da cidade e a maioria dos prédios eram falsos históricos. O mais surpreendente eram as várias caixas de som pelas ruas e tocavam música clássica. Isso é tão cafona. Um dos motivos para a música clássica ser um pedaço de merda para a maioria das pessoas vem do fato de que ela se tornou música de elevador. Ninguém gosta de música de elevador assim como ninguém gosta de flor de plástico. Acredito que só sou maes...

I

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Esperei por uma hora. Bem em cima da mesinha de centro um sapatinho de porcelana cheio de retalhos coloridos do Romero Britto. Na parede, um quadro imenso com a foto daqueles ônibus britânicos vermelhos. Todos os móveis são brancos, com detalhes em dourado. A única exceção é uma poltrona com estofado de oncinha. O que mais encarei foi a estante de livros — compartimentos ocupados por vasos, plantas de plástico, uma escultura de avião dourada, escultura de touro dourada, outro Romero Britto e o único livro, um bem grosso de arquitetura, com uma grande pedra de quartzo rosa em cima dele. Na minha espera de uma hora a empregada ofereceu água umas quatro vezes. Quando decido aceitar a água, sou interpelado pela dona (da casa), Soraia Copel, que dispensa a empregada com um abano de mãos. “Desculpa te fazer esperar, estava na minha seção de ThetaHealing. A gente não pode encerrar essas coisas no meio, né?”. Abri um sorriso amarelo, que mantive pelos próximos quinze minutos enquanto ela falav...

Primeiro relato pandêmico

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 Já estamos há 200 dias na quarenta. Talvez no futuro me perguntem como foi viver uma pandemia. Ou talvez não. Ninguém vai ligar mesmo. Só pensei em guardar registros de mim na pandemia porque toda vez lembro que só tenho uma foto de mim na faculdade, e nem é em um laboratório de química, fazendo pesquisas. Isso me deixa aborrecido porque, mesmo odiando a área, eu queria ter uma recordação dessa época. Pra não cair no mesmo erro duas vezes, decidi deixar esse registro, pelo menos um.